domingo, 11 de março de 2012

Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito: uma parceria de papel passado (ou quase).


Já contei aqui um pouco da história do gênio do samba e da boemia, Nelson Cavaquinho. É sabido que, para descolar uns trocos, Nelson vendia seus sambas sem qualquer critério e, por esse motivo, tem em sua obra parceiros que nunca souberam o que é compor uma melodia ou um verso de samba e muitos sambas de sua autoria que sequer levaram seu nome.

A grande exceção é Guilherme de Brito, seu grande parceiro da vida toda. Guilherme e Nelson se conheceram na década de 1940 e foi Nelson quem colocou Guilherme nos trilhos dos redutos boêmios do Rio de Janeiro.  Até então, Guilherme, que já se arriscava como compositor, mantinha uma rotina diária de trabalho batendo cartão na mítica Casa Edison.

Guilherme de Brito, nascido em Vila Isabel, conheceu Nelson tocando em botecos nos arredores de Ramos e a empatia foi imediata. Nelson se encantou tanto com o novo parceiro musical que o fez jurar fidelidade musical. Logo ele, que não era fiel nem aos seus próprios sambas. A coisa foi tão séria que Nelson tentou registrar em cartório o trato feito com Guilherme de Brito, fato que só não aconteceu, pois o funcionário riu e explicou para a dupla que tal registro não era possível.

Mesmo sem registro em cartório, a parceria musical entre Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito é uma das mais inspiradas páginas da MPB. Clássicos de lirismo e melancolia ímpares surgiram dessa união.

Abaixo, duas “pedradas”: A flor e o Espinho e Quando eu me chamar saudade.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A parceria de Zeca e Rildo e uma das melhores entrevistas do Pagodinho

Gosto de todos os discos de Zeca Pagodinho, porém quando ouvimos sua discografia em sequência é possível perceber alguns altos e baixos.

Os dois primeiros trabalhos do sambista, lançados pela RGE, são excelentes. Captam nos arranjos e no repertório todo o clima intuitivo e despojado de Zeca.

O primeiro (Zeca Pagodinho, 1986) foi um arrasa quarteirão em termos de vendagem. Todas as 12 faixas tocaram no rádio. O segundo (Patota de Cosme, 1987) tem em seu repertório clássicos como: Maneiras, Sem endereço, Tempo de Don Don, Feriste um coração e o próprio Patota de Cosme, que dá nome ao disco.

Após esse período, Zeca se transferiu para a RCA e fez alguns discos um tanto irregulares, com arranjos mais POP e faixas que não fazem jus ao seu talento. O melhor disco dessa fase, que durou de 1988 a 1993, é Boêmio Feliz, lançado em 1989.

No final de 1993, Zeca Pagodinho se transferiu para a Universal e sua discografia entrou em outro patamar, ganhando um novo padrão de qualidade. Essa guinada tem um responsável, seu nome é Rildo Hora. Quem trouxe Rildo para a trupe de Pagodinho foi Paulão 07 cordas, que o indicou para produzir o primeiro disco da nova fase, já que o próprio Paulão, cotado para o posto, não queria a função.

Rildo assumiu o posto, no qual se mantém até hoje, e inovou em termos de arranjos e qualidade, incluindo violas, cordas, sopros e outras bossas que o produtor sabe incorporar como ninguém ao samba. Deu também outro fôlego ao repertório de Zeca Pagodinho, incorporando novos compositores, até então nunca gravados pelo sambista.

O primeiro disco dessa nova fase é o excelente Samba pras Moças, de 1995. Foi na maratona de divulgação desse disco que Zeca concedeu uma de suas mais inspiradas entrevistas ao programa Jô Soares Onze e Meia, a qual reproduzimos abaixo:

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Nelson Sargento: um sambista de vários talentos


Nelson Sargento é, sem dúvida, um dos maiores sambistas ainda vivos e um dos baluartes da Estação Primeira de Mangueira.

Nelson passou a morar em Mangueira ainda criança. Foi criado por Alfredo Português, figura notória e respeitada no morro. Logo de cara, o ainda rapaz, passou a andar e aprender coisas do samba e da vida com os bambas. Cartola, Nelson Cavaquinho, Aloísio Dias e Carlos Cachaça eram companhias constantes nas noites de samba e boemia. O "sobrenome" Sargento é herança dos tempos de Exército.

Sua fantástica memória ajuda a preservar histórias, tradições e sambas antigos e ainda inéditos da Verde e Rosa. Foi membro da ala de compositores da Escola e compôs sambas de enredo inesquecíveis como “Vale do São Francisco” em 1948 e o antológico “Cântico à natureza” de 1955, considerado um dos mais belos de todos os tempos.

Nos anos 60, participou ativamente das rodas de samba do Zicartola, do espetáculo Rosa de Ouro e foi integrante dos conjuntos A voz do morro e Os cinco crioulos.

Além de sambista e autor de vários clássicos do gênero, Nelson Sargento é renomado pintor, tendo realizado diversas exposições de seus quadros de estilo primitivo. Artista de múltiplos talentos, também fez participações como ator na TV e em filmes.


domingo, 20 de novembro de 2011

O Jogo de Caipira e o Partido-Alto

Em vários sambas e partidos tradicionais há citações sobre o Jogo de Caipira, mas pouca gente sabe do que se trata o tal jogo e que ele possui profunda relação com os fundamentos do Partido-alto.
O Jogo de Caipira nada mais é do que um simples jogo de azar amplamente praticado nos morros e subúrbios cariocas e em outras regiões brasileiras no século passado.  Trata-se de um jogo de dados atirados sobre um tabuleiro com seis casas numeradas. Os jogadores fazem suas apostas, tentando adivinhar a casa onde o dado irá cair. Quem comanda o jogo é o banqueiro, a quem cabe à função de atirar os dados.
A ligação com o Partido-alto está exatamente na função do banqueiro que, ao atirar os dados sobre o tabuleiro, o faz declamando letras (ou lérias, como diziam os antigos), refrãos e frases ritmadas baseadas no folclore e no dia-a-dia das camadas populares.
Um bom exemplo de samba que fala do Caipira está no primeiro disco de Zeca Pagodinho, lançado em 1986. Samba de Nei Lopes e Sereno que resgata o clima dos versos cantados pelo banqueiro e demais participantes do jogo.
PS- Barra Mansa está no samba (!), remetendo à tradição da cultura popular do Vale do Paraíba, mas isso ainda será assunto de outros posts.

domingo, 9 de outubro de 2011

O Trio Mocotó e o Samba Rock

O Trio Mocotó nasceu em São Paulo no ano de 1968, mais precisamente na mítica Boate Jogral. Seus integrantes eram contratados da boate para atuar como banda de apoio dos artistas que lá se apresentavam.

Pelo palco da badalada boate paulistana passaram artistas como Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Paulo Vanzolini e até, pasmem, artistas internacionais do quilate de Dizzie Gillespie e Duke Ellington.

Uma das canjas mais freqüentes na boate acabou resultando numa clássica parceria da MPB. De tanto tocar com Trio na Boate Jogral, Jorge Ben acabou fazendo deles sua banda oficial. A formação original Fritz Escovão, Nereu Gargalo e João Parayba gravou com Jorge Ben os antológicos discos: Jorge Ben (1969), Força Bruta (1970) e Jorge on Stage (live in Japan) de 1971.

O nome, Trio Mocotó, vem de uma gíria da época e é resultado da popularização da minissaia, que deixava à mostra o mocotó das meninas.

Da discografia da banda, merecem destaque: Muita Zorra! Ou são coisas que glorificam a sensibilidade atual, de 1971, onde está o hit Coqueiro Verde; Trio Mocotó, de 1973 e Samba Rock, lançado em 2001. O disco de 2001, lançado em banca de jornal, marcou a volta do Trio em sua formação original e mostrou que eles estavam em plena forma.

Abaixo, um especial da TV Cultura, gravado em 1971, e o clipe de Voltei Amor, do disco de 2001.



quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre Herivelto, Dalva e cabelos brancos

Herivelto Martins foi um grande compositor, uma liderança na luta pelos direitos da classe artística e uma personalidade controversa. Seu relacionamento turbulento com Dalva de Oliveira, uma das maiores estrelas da MPB de todos os tempos, deu origem a inúmeros escândalos e era sempre um prato cheio para a imprensa da época.

Esse relacionamento foi narrado em detalhes em um belo e emocionante livro, escrito pelo filho do casal Pery Ribeiro, chamado Minhas duas estrelas: uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, Editora Globo.

Um de seus maiores sucessos foi composto em São Paulo num momento em que Herivelto já havia se separado de Dalva. O compositor passava uma temporada no bairro do Jabaquara, hospedado na casa do irmão, por conta da participação em um filme rodado na capital paulista.

Numa tarde em que fazia compras em uma quitanda próxima à casa do irmão, percebeu que duas senhoras falavam muito mal de sua ex-mulher Dalva de Oliveira. A situação o deixou muito magoado pensando que as duas senhoras estavam falando, pois haviam notado sua presença. Herivelto então, pensou em pedir que as duas parassem e respeitassem sua presença, que respeitassem ao menos seus cabelos brancos. Ao voltar para casa, fez toda a primeira parte da música. A curiosidade contada pelo próprio compositor era que àquela altura ainda não possuía nenhum fio de cabelo branco.

Retornando ao Rio mostrou a “primeira” que havia composto para o amigo e parceiro de composição Marino Pinto. Finalizaram a segunda parte juntos, após visitarem vários bares durante uma noite de boemia. Estava pronto mais um clássico da MPB: cabelos brancos. Uma das muitas músicas que Herivelto Martins fez para seu grande amor Dalva de Oliveira.

Abaixo, link da excelente interpretação de Cabelos Brancos pelo conjunto vocal Quatro Ases e um Coringa, gravada em 1951.

sábado, 25 de junho de 2011

Como nasce um samba: "Eu heim, Rosa!"

João Nogueira e Paulo César Pinheiro eram grandes amigos, no samba e na vida. Houve uma época em que João começou a insistir para Paulo compor com ele um samba nos moldes dos que Paulo fazia com Baden Powell. Um samba cheio de malandragem, nas palavras de João Nogueira: “um samba de esculachar mulher que larga homem”, no estilo de “Vou deitar e rolar (Quaquaraquaquá) ” e “Falei e disse”.

Quem explica essa linhagem de samba é o próprio Paulo César Pinheiro: “esse tipo de samba é pra uma linha melódica determinada, não cabe em qualquer melodia, se não souber fazer fica vulgar. Mesmo esculhambando a madame, tem que ser fino e elegante. Tem que usar palavras incorporadas à fala criativa do malandro. A gíria tem que ser antiga, já incorporada ao Português. Se usar gíria nova, corre o riso de ficar datado se a gíria não pegar.”

João sempre tocava no assunto e vivia repetindo uma expressão que seria utilizada no samba “Eu heim, Rosa!”, mas mostrar música que é bom nada.

Certa segunda-feira, João vai até São Cristovão buscar Paulo César para uma noitada de samba no Teatro Opinião. Lá pelas tantas, Paulo resolve provocar o amigo dizendo que achava que João tinha perdido a inspiração, que estava muito devagar, pois já não conseguia fazer um simples samba.

Bastou à provocação para João Nogueira virar bicho e mandar Paulo ligar “a porra do gravador” que sempre levava consigo. João saiu cantando sem parar, o que passava em sua cabeça. A melodia do samba ficou pronta inteira, em minutos. Paulo nunca havia visto nada tão rápido.

Semanas depois, já com a letra pronta, Paulo César Pinheiro foi mostrar o resultado para João Nogueira. João não se lembrava de nenhuma frase que tinha feito e achou que era gozação. Paulo teve que mostrar a fita gravada para um estupefato João que, ao chegar ao final da audição, arrematou bem ao seu estilo: “Eu heim, Rosa!”

Segue o samba, um dos sucessos da dupla João Nogueira e Paulo César Pinheiro:



terça-feira, 19 de abril de 2011

O Poeta da Vila e sua declaração de amor ao Estácio

Noel Rosa sempre foi um grande admirador dos bambas do Estácio e do jeito de fazer samba criado naquela região. É possível perceber claramente a influência do estilo de sambistas como Bide e Marçal na obra do Poeta da Vila Isabel.

Certa feita, Noel pôde traduzir em música sua admiração pelo samba e pelos sambistas do Estácio. Em 1935 estava sendo produzida no Rio uma peça de teatro em que várias vedetes cantariam músicas em homenagem aos bairros da cidade. A Revista se chamava Rio Folis.

A vedete Ema D’Ávila, recém chegada ao Rio vinda de Porto Alegre, era a encarregada de cantar o quadro em homenagem ao Estácio, contudo ainda não tinha a canção.

Aí entra Noel que, sendo grande fã da turma do Estácio, prontificou-se a compor o samba de um dia para o outro. No dia seguinte e na hora marcada, Noel Rosa chega ao teatro com seu violão e vai pedindo desculpas, pois a canção não estava “grande coisa” já que havia sido feita às pressas. Desnecessário dizer que o samba é mais uma das obras primas do gênio de Vila Isabel.

Curioso é que, uma semana depois em um bilhar, Noel Rosa encontrou Aracy de Almeida, famosa por ser uma das principais intérpretes da obra do compositor, que lhe pediu uma samba inédito para gravar. Noel então escreveu num papel a letra de “O X do Problema”. Aracy gravou e passou toda sua carreira achando erradamente que a canção fora composta para ela, porém “O X do Problema” nada mais é que o samba composto para a peça acima citada.

No vídeo, Roberta Sá interpretando mais uma obra prima de Noel Rosa.


quinta-feira, 31 de março de 2011

As polêmicas do "compositor" Noite Ilustrada

O cantor Noite Ilustrada nasceu Mário Sousa Marques Filho em Pirapetinga, no dia 10 de abril de 1928. Seu nome artítico foi dado pelo comediante Zé Trindade, que comandava em Além Paraíba- MG a revista musical Noite Ilustrada, onde o jovem Mário começou tocando violão.

Além de violonista e intérprete renomado, Noite foi autor de alguns sambas e é exatamente seu lado compositor que o envolveu em algumas polêmicas durante sua carreira. Duas delas, envolvendo os dois maiores compositores do samba paulista, motivaram o texto de hoje.

A primeira polêmica envolveu Noite Ilustrada, Adoniran Barbosa e a música “Bom dia tristeza” (parceria de Adoniram e Vinícius de Moraes). Parceria intermediada e, depois de pronta, gravada com sucesso pela cantora Aracy de Almeida em 1957. Anos mais tarde, o cantor espalhou ser ele o verdadeiro autor da música. Noite Ilustrada afirmava que o próprio Adoniran havia pedido para compor a melodia para a letra de Vinícius e que ficou surpreso ao ver seu nome limado da parceria no disco de Aracy. Adoniran nunca polemizou nem se deu ao trabalho de responder as acusações. Certa feita, um programa de rádio que recebia o cantor, telefonou e colocou Adoniran no ar para falar sobre as acusações. O compositor, elegantemente, apenas declarou: “deixa isso pra lá”. Todos que conviveram com Adoniram Barbosa sequer cogitaram a possibilidade do compositor ter roubado a autoria de um samba.

A segunda envolveu Noite Ilustrada, seu maior sucesso e o grande Paulo Vanzolini. De acordo com Paulo, o cantor chegou a afirmar em um programa na Rádio Bandeirantes que era o verdadeiro autor de “Volta por cima”, enorme sucesso desde 1963 na voz de Noite. Para seu azar, dessa vez, o locutor do programa era o radialista Henrique Lobo, primo de Vanzolini, que acompanhou a composição da música e desmentiu a “revelação” no ar, durante o programa. Em 2002, ao regravar sua obra na caixa “Acerto de contas” pela Biscoito Fino, Vanzolini deixou de fora o mais famoso intérprete de “Volta por cima” e declarou sobre Noite Ilustrada: “Mário é um ótimo cantor, mas um tremendo de um mau-caráter.”

No vídeo, Noite ilustrada e seu maior sucesso, a famosa interpretação do samba de Paulo Vanzolini.

domingo, 20 de março de 2011

Como nasce um samba: Portela na avenida


Pedido de esposa não se nega e foi assim que esse clássico do samba nasceu. Clara Nunes, então esposa de Paulo César Pinheiro, encomendou ao marido um samba em homenagem a sua escola de coração.

Todos os membros da ala de compositores da Portela já haviam feito seu samba homenageando a agremiação. Acontece que depois de 1970, quando Paulinho da Viola compôs o hino “Foi um rio que passou em minha vida” a tarefa ficou difícil. Dez anos já haviam se passado sem que nenhum samba no mesmo nível fosse criado.

O mangueirense Paulo César Pinheiro aceitou a missão de criar um novo samba exaltando a azul e branco de Osvaldo Cruz. O compositor convidou o amigo Mauro Duarte para a parceria que se empolgou com a idéia e trouxe o primeiro esboço da música.

Dias se passavam e nada da inspiração chegar e fazer nascer o samba, P.C. Pinheiro estava prestes a desistir e deixar a composição pra depois.

Foi aí que, numa manhã em casa, Paulo se pôs a olhar para o cantinho de Clara, onde havia um altar que misturava os orixás do candomblé e os santos católicos. No centro, em destaque, havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

Nesse momento, o compositor conta, tudo ficou claro, o que ele vinha buscando estava ali. A mistura do sagrado e do profano seria a tônica da música. O manto azul da santa era a escola e seus componentes entrando na avenida, a procissão do samba, a águia (símbolo da escola) seria a a pomba do Espírito Santo e o altar a Apoteose para onde se dirigiam os fiéis.

Paulo César Pinheiro atendeu o desejo de sua mulher e criou mais um clássico falando da Portela, sucesso absoluto na voz de Clara Nunes.

“Portela na Avenida” ao lado de “Foi um rio que passou em minha vida” são as duas músicas mais bonitas que exaltam a azul e branco. São os dois sambas utilizados para esquentar a escola na avenida antes do desfile oficial.